Como se pudesse ver branco em tudo
Por Vinícius Ribeiro
Todas as cores habitam no branco, assim nos ensina a ciência. Aliás, o branco é a união de todas as cores. Por isso, o papel de tal cor é o mais desejado, o mais usado, o mais escrito. Mas isso nunca seria possível se não houvesse algo de mais escuro destacando a dualidade das cores, quase sempre seu paradoxal negro ou seu irmão azul. O apartheid nunca esteve tão próximo desde a escrita, no arroz com feijão e no café com leite. Em todos eles, na dualidade se faz comida e arte.
Que bom que há contrastes na vida. Muitos não aceitam que nas cores ou nas diferenças delas surjam várias coisas interessantes, a espuma do mar, a espuma do café. Teria alguma graça cobertura de chocolate em um sorvete da mesma cor? Pode até ser que sim, mas no contraste como no de creme ou de flocos fica mais bonito. Aliás, quem nunca foi criança e brincou com os antigos contrastes da tvs a válvula? Parecia incontrolável ajustar o brilho e se fascinar com o vai e vem das cores em preto em branco. Isso nos faz lembrar que se chaplin fosse colorido seu bigode provavelmente traria fios ruivos que ninguém nunca viu a cores. Mas com certeza imaginou em preto e branco, Imaginou porque a simplicidade seja ela nas cores ou nas metáforas nos faz sonhar como no cinema, em que todo o sonho aparece quase sempre representado em preto e branco. O sonho é o lugar onde a ausência de coloridos provoca a vontade de colorir.
Começamos de novo, novo parágrafo agora colorindo no preto da letra e no branco do papel, porque seguindo nessa dualidade o racismo se torna ridículo e incompreensível. A miscigenação gerou o colorido que os pretos, brancos e amarelos fizeram na aquarela das etnias. Se lembrarmos ou vermos o belo na arte é porque algo se misturou, seja na tinta do guache ou nas massas da escultura. Se vir a beleza é porque algo se misturou, pois se não houvesse a mescla, o igual seria um tédio. Então, as formas se criam no contorno de tons que se fundiram dando origem ao degrade e brilhos sendo explicitados pela natureza. As rochas, a areia o mar verde, azul ganharam forças nas íris de quem vê e cor na mentes dos cegos que nunca viram, mas que podem imaginar.
Nunca existiria a luz se não houvesse o escuro, nem branco se não houvesse o negro. Poderíamos aqui citar um monte de paradoxos partindo dessas simples cores. O perigo é parar por aí e ficar no maniqueísmo do bem e do mal, tristeza e alegria. Mas com o tempo as dualidades ganham laços, se sofisticam, e ficam cada vez mais coloridas. Ficamos então coloridos, cheios de vida, amor, e os paradoxos dão lugar a um sentimento único, tudo se funde e vira branca luz que ilumina quando os caminhos estão escuros. A luz fica amiga do escuro e o piscar passa a ser alegria da discoteca. Movimentando as pálpebras tudo pisca em ausência e presença, vira alegria, dor, felicidade, vira vida, volta a ser sonho, o mesmo que nos filmes coloridos aparece em preto e branco. Agora é só fechar os olhos e começar a colorir de novo.

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