Trocando de Armário
Por Vinícius Ribeiro
A madeira envelhece. Esse é um dos principais problemas quando vemos que temos que trocar de armário. Uns pedacinhos descascados ali, outros lá. Com o tempo de uso, os cabideiros não agüentam mais tantas roupas e começam a cair. As gavetas não abrem, começam a emperrar. O curioso, é que normalmente agüentamos o armário assim, todo capenga durante um bom tempo. Aí vem aquela sensação de medo, quando se pensa em comprar outro, e o pensamento de como será que fica o quarto com uma mudança de armário. Mas não é só a mudança física, a reorganização do espaço que dá medo. Retirar as coisas do armário dá mais. Quando se decide, trocar o móvel, depois de uma intensa briga consigo mesmo, a primeira tarefa que se tem, é retirar seus pertences que por anos ficaram dentro deles, assim como muitas lembranças que estão lá e são agradáveis e outras que não mais queremos rememorar. É assim que se começa, pensando como se vai começar. Será é melhor primeiro despejar as gavetas? Mas uma esta emperrada, durante anos, melhor começar por ela! Então, com um forte tranco se puxa a gaveta que faz cair sobre os pés um monte de coisas. Fotos, papéis, cartas, documentos, boletins, ingressos de cinema, marcadores de livro, livros, coisas que uma só gaveta não suportaria, daí o motivo dela Ter ficado emperrada durante anos. Sobre os pés lá estão anos de fragmentos de momentos que vivemos,. Então, é quase que incontrolável se abaixar e olhar, um por um, tudo que estava guardado durante muito tempo naquela lotada gaveta. Aí então começa a apuração dos papéis, de uma hora para outra nos damos conta que nossas vidas não são, nem nunca foram tão pequenas assim, as lembranças sim é que não estavam ativadas. Logo se vê a carta de ex-namorada ou do ex-namorado, fotos soltas, uma de um aniversário de infância em que nossos pais estão de costeletas e calça boca de sino, o ingresso daquele jogo que o seu time perdeu outro que ganhou, e um monte de pedaços de coisas que um dia já existiram, dentre elas fios de walk man, pedaços de disco viniu, fitas cassete de baladas da época, mas tudo fica emocionante quando encontramos a nossa caderneta do jardim de infância, com aquela foto de cabelinho chanel pras menininhas e do tipo indiozinho (corte de cuia) para os meninos, com aquelas anotações da professora; hoje fulaninho foi muito bem, brincou e viu o teatrinho de fantoches. Nesse momento é que percebemos o quanto à saudade tem cheiro, dá pra sentir o cheiro de certos momentos da infância, aquele cheirinho de inocência, alegria por apenas ver uns bonequinhos, e que alegria!
Depois das gavetas vamos retirando as roupas e vendo quantas não usamos mais. O curioso é que sabemos disso e por muito tempo olhamos pra elas com aquele ar de preguiça, mas quando mudamos de armário é impossível não se desprender delas. Umas têm o maior valor emocional, mas não agüentam mais nem ficar em cabide. Outras a gente pode dar, mas dá dó. É aí que se percebe o quanto à moda mudou aquela roupinha, que temos ainda o maior apego, apesar de estar velhinha, é de outra moda, moda que não se usa mais. As modas passam. O tempo também, o armário envelhece, e o que tem dentro dele acompanha a sua idade.
Passemos à parte superior do armário, a mais inacessível. Lá estão os jogos de infância, bonecos, tabuleiros de xadrez, de damas, o banco imobiliário, o vídeo game, aqueles quadros de fotos com as nossas caras que imitavam as manchetes de revistas famosas, como a própria revista Manchete. Parece impossível se desfazer dessas coisas. Por alguns instantes paramos para pensar o quanto amamos nossos bonecos e bonecas, como eles foram pessoas para nós e o quanto voltam a ser quando olhamos pra eles. Brinquedos e brincadeiras inocentes também estavam lá guardados, e percebemos o quanto ficamos adultos.
O armário será trocado. As emoções são grandes e o aprendizado com elas foi enorme. Aprendemos a voltar no tempo e a sermos um pouco mais criança. Lá dentro de gavetas e prateleiras de madeira ficam muitas coisas de nossas vidas, são lembranças que não foram esquecidas e que precisam novamente suscitar. Então, cada partezinha dos utensílios que o conjunto de madeiras guarda tem afeto, amor. Mas a vida é assim, é cheia de armários, uns preferem abrí-los para se renovarem, ativando cada recordação, umas doces e outras que ficaram como registro de nossas histórias, outros manterão seus armários fechados, congelados, utilizando-os como armaduras, não reativando lembranças, com medo de suas próprias vidas. Tem gente que é adulta e ainda continua acreditando no monstro do armário.

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